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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Ceprama celebra 37 anos de história e valorização do artesanato maranhense

Revitalizado, o espaço preserva saberes, fortalece o turismo cultural e mantém viva a tradição de quem transforma a identidade maranhense em arte.

Texto e fotos: Geíza Batistta 

20/10/2026

Instalado em um casarão histórico que abrigou, até o final do século XIX, a antiga Fábrica de Fiação e Tecelagem Cânhamo, no bairro Madre Deus, em São Luís (MA), o Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão (Ceprama) celebra, nesta terça-feira (20), 37 anos de atuação na valorização, promoção e difusão da cultura e do artesanato maranhenses.

Com aproximadamente 4 mil m² de área total, o espaço reúne 38 estandes dedicados à comercialização de peças artesanais produzidas em diferentes regiões do Maranhão. Os trabalhos expostos refletem a diversidade de matérias-primas encontradas no estado e a riqueza de técnicas e saberes transmitidos entre gerações.

Atualmente, o Salão do Artesanato do Ceprama mantém uma exposição permanente de peças feitas à mão, confeccionadas com matérias-primas como fibra de buriti, sementes, cerâmica, couro, ossos, palha e rendas de bilro, além de trabalhos em azulejaria e outras expressões do fazer artesanal.

“O Ceprama é destino obrigatório para turistas de todo o Brasil e do mundo que visitam o estado em busca da singularidade da cultura e do artesanato local. O Ceprama carrega a identidade cultural do Maranhão, e é missão de toda a sociedade preservar esse legado”, afirmou Socorro Araújo, secretária de Turismo do Maranhão (Setur-MA), órgão responsável pela gestão do espaço.

Da indústria têxtil ao artesanato

Antes de se consolidar como um espaço dedicado à cultura popular maranhense, o prédio que hoje abriga o Ceprama atravessou diferentes fases. Durante décadas, o complexo sediou a Fábrica de Fiação e Tecelagem Cânhamo, que produzia sacarias de estopa a partir de fibras de cânhamo, utilizadas na fabricação de tecidos resistentes. Com o declínio das atividades industriais, o empreendimento encerrou suas operações, e o imóvel permaneceu abandonado por anos.

“A Fábrica Cânhamo fez parte de um grande parque industrial têxtil maranhense, instalado em São Luís no final do século XIX. Àquela época, fazendeiros e empresários que atuavam no Maranhão precisavam de uma atividade para suprir o cenário economicamente desfavorável deixado pela abolição da escravatura”, explica o historiador e guia de turismo Bento Filho.

Com a retração das exportações e o enfraquecimento do setor têxtil tradicional, a fábrica encerrou suas atividades, deixando o complexo industrial em estado de abandono. Na década de 1980, como parte das iniciativas de recuperação e preservação do patrimônio histórico de São Luís, o Governo do Estado promoveu a restauração do imóvel, que deu lugar ao Ceprama, inaugurado em 1989.

“A fábrica fecha no final da década de 1960 e, durante muito tempo, ficou abandonada, esquecida e em ruínas. Até que, em 1989, o Governo do Estado adquire e revitaliza a antiga Fábrica Cânhamo para transformá-la no Centro de Produtos Artesanais do Maranhão”, relata Bento Filho.

Artesanato que atravessa gerações

Ao longo de seus 37 anos, o Ceprama consolidou-se como referência cultural e símbolo do artesanato maranhense. Quem visita o espaço encontra réplicas de azulejos típicos da arquitetura local, miniaturas de elementos do bumba meu boi, telas pintadas a óleo, rendas, doces e licores de diferentes sabores. Em alguns casos, também é possível acompanhar de perto o processo de confecção das peças.

Além de contribuir para o fortalecimento do turismo e da cultura estadual, o Centro transformou-se em uma importante fonte de renda para trabalhadores que encontraram no artesanato uma oportunidade de desenvolver seus talentos e preservar tradições. É o caso de Lúcia Franco, artesã que acompanha a trajetória do Ceprama desde os primeiros anos de funcionamento e produz e comercializa biojoias no local.

Lúcia Franco, uma das primeras artesãs em atividade no Ceprama

Lúcia ingressou no espaço como vendedora, em 1990, e, gradualmente, aprendeu a trabalhar com sementes de diferentes espécies, bordados em miçangas e peças de crochê. Hoje, orgulha-se de sua trajetória profissional e da experiência como permissionária do Ceprama, onde transformou criatividade e dedicação em um ofício.

“Cada peça que eu faço é uma festa. Tudo o que eu faço, para mim, no momento em que monto uma peça, é uma joia. Ainda mais quando o cliente chega e se apaixona. Se tem uma coisa que me deixa envaidecida é alguém comprar uma peça minha e eu sentir que a pessoa gostou. Eu me sinto a mulher mais feliz do mundo”, conta.

Outra artesã que se orgulha de integrar o conjunto de profissionais do Ceprama é Andrelina Neta. Há cerca de 15 anos, ela e o marido, Thyago Silva, confeccionam chapéus artesanais inspirados no bumba meu boi maranhense, utilizando bordados com miçangas, paetês e canutilhos.

Casal Andrelina e Thyago Silva atuam na confecção de chapéus juninos há mais de uma dácada no Ceprama

“Trabalhar no Ceprama é motivo de muito orgulho. Além de trabalhar e ter uma renda fixa com os bordados, estou mostrando a minha cultura, o meu trabalho e o meu artesanato. Aqui no Ceprama, abriu-se uma porta para que eu pudesse mostrar ainda mais o meu trabalho. Para mim, é só gratidão”, relata Andrelina.

Cultura viva o ano inteiro e modernização

Muito além da comercialização de peças artesanais, o Ceprama consolidou-se como um espaço de encontro, expressão artística e difusão da cultura maranhense, recebendo apresentações musicais e manifestações da cultura popular ao longo do ano.

Entre os eventos tradicionais realizados na área externa do complexo está a Festança Junina do Ceprama, que há mais de duas décadas reúne maranhenses e turistas em uma programação que marca anualmente a abertura da temporada junina no estado.

Durante o período festivo, o espaço recebe dezenas de grupos de tambor de crioula, bumba meu boi, quadrilhas juninas, dança portuguesa, blocos tradicionais, cacuriá e outras manifestações que expressam a diversidade das tradições populares do Maranhão.

A concha acústica instalada na área externa também já recebeu centenas de atrações, entre grupos de cultura popular e artistas de projeção nacional e internacional, como a cantora jamaicana Donna Marie, a banda de rock Raimundos e o grupo de rap Racionais MC's.

Nos últimos dois anos, o equipamento cultural passou por uma série de intervenções voltadas à modernização e à melhoria de sua infraestrutura. Entre as ações estão a revitalização do Salão do Artesanato, a renovação do sistema de iluminação, a recuperação dos banheiros, a impermeabilização e revisão do telhado, além da instalação de novos balcões e estantes.

“Nosso objetivo sempre foi fortalecer o papel do Ceprama como vetor para o turismo e para a cultura local. O Ceprama representa a identidade do nosso estado. Qualificar esse espaço significa melhorar a experiência do visitante e fortalecer o artesanato como produto turístico”, avalia a secretária Socorro Araújo.

Núcleo Arte Educação e Programa do Artesanato Brasileiro

Em 2005, o Ceprama inaugurou a primeira sala do Núcleo Arte Educação (NAE), iniciativa voltada à formação de estudantes da rede pública estadual por meio da arte e da cultura. Atualmente, o projeto oferece cursos nas áreas de música e dança, ampliando as oportunidades de aprendizado e de contato com diferentes expressões artísticas.

No primeiro semestre deste ano, a sala do NAE passou por reforma e adaptação para funcionar como sede permanente das turmas de música e dança. As melhorias contemplaram salas, banheiros e área administrativa, com intervenções de acabamento, iluminação, acessibilidade, pintura e reorganização dos ambientes.

“O Ceprama já é um ambiente voltado à valorização da cultura maranhense e do artesanato. Com o Núcleo Arte Educação, ampliamos esse papel, transformando o espaço também em um centro de formação e inclusão por meio da arte e da educação”, afirmou Silvério Júnior, diretor do Ceprama.

Outro importante serviço que funciona no Centro é o Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), iniciativa federal coordenada pelo Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP). No Maranhão, o programa contribui para o fortalecimento do setor artesanal, incentivando a formalização dos profissionais, a valorização da produção local e a ampliação de oportunidades de comercialização.

O Ceprama também sedia ações de cadastramento de artesãos maranhenses no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab) e atua na emissão da Carteira Nacional do Artesão, documento que reconhece formalmente esses profissionais e possibilita o acesso a benefícios e oportunidades, conforme os critérios estabelecidos pelo programa, incluindo a participação em feiras e eventos do setor.

De acordo com Liliane Castro, coordenadora do PAB no Maranhão, o programa foi criado em 1991 com o objetivo de valorizar o artesão brasileiro, fortalecer o artesanato como uma atividade econômica e preservar a cultura e as tradições regionais. O programa atua com quatro vertentes: reconhecimento do artesão, capacitação profissional, divulgação e preservação da cultura regional.  

“Com o PAB conectado ao Ceprama podemos divulgar as políticas públicas do programa, levando qualificação, reconhecimento profissional e, principalmente, oportunidades de geração de renda. Essa parceria com o PAB fortalece o trabalho desenvolvido no Ceprama, que é um espaço de referência e de promoção do artesanato”, destaca Liliane.  

O Ceprama está localizado na Rua São Pantaleão, nº 1322, no bairro Madre Deus, em São Luís. O espaço funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, e aos domingos, das 9h às 13h. Mais informações podem ser consultadas no perfil oficial do Centro no Instagram: @ceprama_setur.

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