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| Biojoias produzidas com fibras naturais carregam identidade, memória e sustentabilidade. Foto: Ana Angelotti |
Quando vê uma biojoia produzida por suas mãos seguir viagem para outro estado ou até para outro país, a artesã quilombola Maria Josiane Pacheco sabe que não está vendendo apenas um produto.
“Quando alguém leva uma peça feita por nós, leva também nossa cultura, nosso afeto, nossa união e a força do povo quilombola. É o reconhecimento da nossa ancestralidade, e isso nos enche de orgulho”, afirma.
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| Maria Josiane Pacheco apresenta produtos do Quilombás durante evento nacional de artesanato em São Paulo. (Foto: Geíza Batistta) |
A emoção de Maria Josiane ajuda a contar uma trajetória que começou muito antes das feiras nacionais, dos certificados e das vitrines. Uma caminhada construída pelas mãos de mulheres quilombolas que aprenderam com mães, avós e bisavós a transformar o babaçu em fonte de sustento, identidade e resistência.
A cerca de 160 quilômetros de São Luís, capital do Maranhão, o conhecimento ancestral preservado nas comunidades quilombolas maranhenses da Viúva, Cachimbo, Barrocão, Tiririca, Buriti, Recanto Dois e Tambá ganhou novos horizontes em 2025 com a criação do Projeto Quilombás, iniciativa da Secretaria Municipal de Igualdade Racial da Prefeitura de Cantanhede MA.
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| Mais que um coletivo produtivo, o Quilombás é uma rede de apoio, afeto e fortalecimento feminino (Foto: Ana Angelotti) |
O projeto reúne mulheres quilombolas e campesinas que encontraram no empreendedorismo uma forma de ampliar a autonomia financeira, preservar tradições e criar novas perspectivas para suas famílias.
“Falar do Quilombás é falar de vidas, cultura, afeto e coletividade. Somos força e transformação. Essas mulheres dão sentido ao projeto e hoje carregam com orgulho o sentimento de pertencimento a essa história”, destaca Maria Josiane Pacheco.
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| A tradição das quebradeiras de coco inspira novas oportunidades para mulheres do Maranhão. Foto: Ana Angelotti |
Nas comunidades participantes, o babaçu está presente em praticamente tudo. Da amêndoa surgem óleos, sabonetes e alimentos. Da palha nascem biojoias, bolsas, cestarias e peças decorativas que carregam a identidade maranhense. O diferencial está no aproveitamento integral da matéria-prima, em um modelo baseado no desperdício zero e alinhado aos princípios da bioeconomia sustentável.
Segundo a secretária municipal de Igualdade Racial de Cantanhede, Rosângela Ludovico, a iniciativa converteu um saber tradicional em uma oportunidade concreta de desenvolvimento.
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| Das mãos das artesãs nascem produtos que levam a cultura maranhense para novos mercados. Foto: Ana Angelotti |
“O Projeto Quilombás trouxe mudanças significativas para a vida dessas mulheres. Além da geração de renda, fortaleceu a independência financeira, a autoestima e o vínculo com suas origens. Muitas passaram a reconhecer seus conhecimentos tradicionais como um patrimônio capaz de garantir sustento e manter viva a cultura da comunidade”, afirma.
Os resultados apareceram rapidamente. Dados da Secretaria Municipal de Igualdade Racial de Cantanhede mostram que o coletivo reúne atualmente 40 mulheres, beneficia diretamente 40 famílias, comercializou cerca de 600 peças e movimentou aproximadamente R$ 30 mil desde sua criação.
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| Artesã quilombola, Maria Josiane encontrou no babaçu uma forma de preservar tradições e gerar renda. Foto: Ana Angelotti |
Por trás desses números existe uma rede de apoio voltada ao fortalecimento do empreendedorismo feminino. As participantes receberam capacitações do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas Sebrae, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural Senar e de outros parceiros, contribuindo para o aprimoramento das técnicas artesanais, da gestão e das estratégias de venda.
“Tivemos pessoas que acreditaram em nós quando nem nós mesmas acreditávamos. Os professores do Sebrae sempre reforçavam que éramos capazes. Descobrimos que o conhecimento herdado de nossas mães e avós tinha valor e podia alcançar lugares que nunca imaginamos”, recorda a artesã Maria Pacheco.
| Cada peça guarda histórias de ancestralidade e resistência quilombola.Foto: Geíza Batistta |
O fortalecimento do grupo também contou com o apoio do Instituto IVG, do Governo do Maranhão, por meio do Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão Ceprama, Setur-MA, e da atuação de Nelinha do Babaçu, referência na valorização das quebradeiras de coco e dos saberes tradicionais maranhenses.
O reconhecimento veio acompanhado de conquistas importantes. Trinta artesãs receberam a Carteira Nacional do Artesão, emitida pelo Programa do Artesanato Brasileiro PAB, e passaram a contar com o selo Origem Quilombola, certificação que reforça a identidade dos produtos e amplia as possibilidades de acesso a novos mercados.
O trabalho desenvolvido pelas artesãs também ultrapassou os limites de Cantanhede MA. O grupo participou do Salão do Artesanato, em São Paulo, passou a fornecer produtos para comercialização no Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão Ceprama e vendeu suas produções durante ações ligadas à COP30, em Belém.
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| Rosangela Ludovico e artesãs quilombolas fortalecem a transmissão de conhecimentos. Foto: Geíza Batistta |
“A presença nesses espaços gerou visibilidade, reconhecimento e novas possibilidades de negócio. Ver os produtos despertando interesse em pessoas de diferentes regiões fortaleceu a confiança das artesãs e impulsionou o empreendedorismo local”, ressalta Rosângela Ludovico.
Para a gestora, o sucesso do Quilombás é resultado da articulação entre políticas públicas, qualificação e valorização dos conhecimentos tradicionais.
“O Quilombás alcançou essa dimensão graças à união entre a Prefeitura de Cantanhede, o Governo do Maranhão, o Sebrae, o Senar, o Instituto IVG, Nelinha do Babaçu e iniciativas voltadas ao artesanato. Hoje vemos mulheres que antes tinham pouca visibilidade ocupando espaços nacionais e internacionais com seus produtos e suas trajetórias”, destaca.
Em um estado que abriga a segunda maior população quilombola do Brasil, mais de 269 mil pessoas, segundo o Censo 2022 do IBGE, iniciativas como o Quilombás demonstram que o desenvolvimento sustentável também pode surgir da preservação cultural.
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| Cada trama preserva conhecimentos herdados de mães, avós e bisavós. Foto: Ana Angelotti |
Enquanto uma peça produzida em Cantanhede segue viagem para outros estados ou países, permanece nas comunidades algo ainda mais valioso: a certeza de que as raízes que sustentam a identidade de um povo também podem abrir caminhos para o futuro. E que o empreendedorismo feminino, quando encontra apoio, conhecimento e pertencimento, transforma vidas sem romper os laços com a própria história.
Texto: Geíza Batistta
Fotos: Geíza Batistta e Ana Angelotti









Gratidão pela materia🤎🤎🤎🤎🤎🤎🤎🤎🤎
ResponderExcluirQue matéria linda. Ver a história das mulheres da nossa comunidade sendo contada com tanto respeito enche o coração de orgulho. Obrigada.
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